Pudera eu mergulhar nas águas congeladas do Ártico pra que o frio fizesse parar o meu coração cansado.
Pudera eu me entregar ao fogo para que me queime por inteiro, célula por célula, até que de mim só restem as cinzas.
Pudera eu me lançar no vácuo infinito da imensidão do universo, pra que a pressão comprima meu corpo e faça explodir meus órgãos.
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domingo, 30 de março de 2014
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Pesadelo 2
Eis-me aqui.
Deitado à sombra de uma árvore morta.
Com meus olhos fechados,eu vejo apenas a escuridão.
Os únicos sons que ouço são o assobio sombrio do vento e a água atingindo as rochas na margem do rio.
Eis-me aqui.
Deitado à sombra de uma árvore morta.
Apenas o rio vermelho ao meu lado.
O rio de águas vermelhas.
Vermelhas como o sangue de mil soldados brutalmente mortos em batalha.
Eis-me aqui.
Deitado à sombra de uma árvore morta.
Assistindo à lua cheia lançar seu feitiço sobre o rio morto, fazendo as águas vermelhas subirem o leito e alcançar as raízes podres da árvore morta.
Eis-me aqui.
Deitado e morto no fundo do rio vermelho.
Afogado pela maré rubra que veio à noite e apagou minha luz.
terça-feira, 18 de junho de 2013
Epitáfio
Existo há dezenove verões e, há pelo menos dez, vivo à sombra das minhas mentiras. Uma década inteira de atalhos e truques para encobrir meus segredos mais obscuros. Os esqueletos do meu armário tremem e vibram a cada nova adição à coleção nada orgulhosa de inverdades.
Minha infância e adolescência foram escritas em páginas surradas de um livro feio e maltrapilho. Cada linha, cada palavra, cada vírgula foi dolorosamente escrita com meu sangue sujo. Cada pequena volta feita pela pena é como uma faca entalhando minha pele nojenta.
Nunca toquei outro e nunca fui tocado. Todo sentimento falso que senti veio disfarçado de amor. Nada de bom ou virtuoso tocou este impuro e gelado e duro coração. Não há luz em minhas trevas, nunca houve luz que se apagou para se tornar trevas. As trevas apenas lá residem. Lá nos recantos mais longínquos do meu labirinto secreto que os doutores chamam de mente.
Para que confiar, se serei traído? Por que confiais em mim, se por míseras moedas de prata, eu vos trairia sem repensar nem uma vez sequer? Não gastaria um só segundo em prol de carinhos.
Pessoa pequena e ingênua, cega demais para ver que só o que desejo é lhe roubar a inocência e suas lágrimas. Súplicas serão ignoradas, assim como foram as minhas há tempos atrás. Minha voz de criança já se calou há anos e não se ouve nem mais um mísero riso infantil e inocente ecoar pelas paredes do meu labirinto.
Não me prestem homenagens quando eu me for! Nem se fosse vivo me daria o trabalho de prestar atenção. Não deposite flores em meu túmulo pois meu veneno irá corroê-las uma a uma. Não há de crescer uma folha verde sequer sobre meu corpo apodrecido e devorado por vermes e parasitas.
Escreverei eu mesmo o resto das poucas páginas restantes deste livro podre. Eu mesmo hei de rasgar minhas artérias para obter o sangue que servirá de tinta para minha pena.
Nenhum amor. Nenhum fruto. Nenhuma lembrança. Só a escuridão interminável do esquecimento.
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