quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Superficial. Superficial?


"E a Beleza é uma forma de Gênio, sendo mesmo superior ao gênio, pois não necessita de ser explicada. Ela faz parte dos grandes elementos do universo, como a luz do sol, a Primavera, ou o reflexo nas águas nocturnas, dessa concha de prata a que chamamos lua. Não pode ser contestada. 
Tem o direito divino de um soberano. Transforma em príncipes os que a possuem. Por vezes, ouve-se dizer que a Beleza é apenas superficial. Talvez seja. Mas, ao menos, não é tão superficial como o Pensamento. Considero a Beleza a maravilha das maravilhas. Só os fúteis não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, e não o invisível. 
Quando a mocidade se for, com ela irá a sua beleza, e, então, cedo descobrirá que não lhe restaram êxitos, ou terá que se contentar com os êxitos insignificantes, que a lembrança do passado tornará mais amargos do que às derrotas. À medida que os meses vão minguando, eles vão-no aproximando de algo terrível. O tempo tem ciúmes de si, e faz guerra à primavera dos seus anos. Então, ficará com a pele macilenta, as faces encovadas e o olhar mortiço. Irá sofrer tormentos... Ah! Tome plena consciência da sua juventude enquanto a possuir. Não esbanje o ouro dos seus dias a dar ouvidos a gente maçadora que tenta aproveitar o fracasso irremediável, nem perca o seu tempo com os ignorantes, os medíocres e os boçais. São esses os objectivos doentios, os falsos ideais dos nossos dias. Viva, viva a vida maravilhosa que existe em si! 
Não desperdice nenhuma oportunidade, procure sempre novas sensações. Não tenha medo de nada..."

 - Oscar Wilde

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Pesadelo 2


Eis-me aqui.
Deitado à sombra de uma árvore morta.
Com meus olhos fechados,eu vejo apenas a escuridão.
Os únicos sons que ouço são o assobio sombrio do vento e a água atingindo as rochas na margem do rio.
Eis-me aqui.
Deitado à sombra de uma árvore morta.
Apenas o rio vermelho ao meu lado.
O rio de águas vermelhas.
Vermelhas como o sangue de mil soldados brutalmente mortos em batalha.
Eis-me aqui.
Deitado à sombra de uma árvore morta.
Assistindo à lua cheia lançar seu feitiço sobre o rio morto, fazendo as águas vermelhas subirem o leito e alcançar as raízes podres da árvore morta.
Eis-me aqui.
Deitado e morto no fundo do rio vermelho.
Afogado pela maré rubra que veio à noite e apagou minha luz.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Insônia


Imóvel. Permaneço inerte todo o tempo. Meus pulmões já não tragam mais o oxigênio, meus músculos estão atrofiados pela falta de uso e meu coração, há muitas luas, não bate, não bombeia o sangue pro resto do meu corpo. Largado num canto úmido, fedido e escuro eu enferrujei, me tornei obsoleto e não sirvo mais pra nada. Mas meus olhos captam tudo e todos. Ao contrário dos outros sistemas orgânicos meus olhos nunca estiveram mais aguçados e vorazes. Toda minha força se esvaiu, mas como peixes resistentes que lutam contra a correnteza para procriar, meu olhos resistiram à inércia.
Agora minha mente se enche de qualquer coisa que minhas retinas captam, nenhuma informação ou imagem é filtrada ou selecionada. Foram se acumulando imagens do céu azul ou cinza e da lua cruzando o veludo azul transpassando suas fases e lançando seus feitiços. Encheu-se uma gaveta no meu arquivo, e depois mais uma, e mais uma, e mais outra, até que se acumularam arquivos e mais arquivos. E caixas, e mais caixas, cheias de informação inútil e perturbadora. No começo era fácil descansar meus olhos. Deitar nos braços de Morfeu era delicioso e revigorante para meus olhos. Mas agora eu não ouso piscar, pois temo que as imagens gravadas no meu lobo temporal me levem à extrema loucura. Morfeu já não recebe minhas visitas há muitos séculos e é provável que fique sem me receber em seu abraço por vários milênios. 
Tenho medo do que possa acontecer se meus olhos não pararem de registrar e armazenar tudo que reflete a luz. Mas ainda tenho esperanças de que minhas retinas sequem e eu fique totalmente cego e que não me reste mais nenhum sentido ou sensação para que eu possa me entregar completamente a Morfeu e me deitar em seus braços sem nunca mais acordar.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Epitáfio


Existo há dezenove verões e, há pelo menos dez, vivo à sombra das minhas mentiras. Uma década inteira de atalhos e truques para encobrir meus segredos mais obscuros. Os esqueletos do meu armário tremem e vibram a cada nova adição à coleção nada orgulhosa de inverdades.
Minha infância e adolescência foram escritas em páginas surradas de um livro feio e maltrapilho. Cada linha, cada palavra, cada vírgula foi dolorosamente escrita com meu sangue sujo. Cada pequena volta feita pela pena é como uma faca entalhando minha pele nojenta.
Nunca toquei outro e nunca fui tocado. Todo sentimento falso que senti veio disfarçado de amor. Nada de bom ou virtuoso tocou este impuro e gelado e duro coração. Não há luz em minhas trevas, nunca houve luz que se apagou para se tornar trevas. As trevas apenas lá residem. Lá nos recantos mais longínquos do meu labirinto secreto que os doutores chamam de mente.
Para que confiar, se serei traído? Por que confiais em mim, se por míseras moedas de prata, eu vos trairia sem repensar nem uma vez sequer? Não gastaria um só segundo em prol de carinhos.
Pessoa pequena e ingênua, cega demais para ver que só o que desejo é lhe roubar a inocência e suas lágrimas. Súplicas serão ignoradas, assim como foram as minhas há tempos atrás. Minha voz de criança já se calou há anos e não se ouve nem mais um mísero riso infantil e inocente ecoar pelas paredes do meu labirinto.
Não me prestem homenagens quando eu me for! Nem se fosse vivo me daria o trabalho de prestar atenção. Não deposite flores em meu túmulo pois meu veneno irá corroê-las uma a uma. Não há de crescer uma folha verde sequer sobre meu corpo apodrecido e devorado por vermes e parasitas.
Escreverei eu mesmo o resto das poucas páginas restantes deste livro podre. Eu mesmo hei de rasgar minhas artérias para obter o sangue que servirá de tinta para minha pena.
Nenhum amor. Nenhum fruto. Nenhuma lembrança. Só a escuridão interminável do esquecimento.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Apodreço!

 
Acabou. Eu perdi a guerra depois de dez anos de batalhas atrozes sem nenhum tempo para descansar.
Para ser sincero, eu desisti de lutar e deixei que as sombrar vencessem, decidi permitir que me consumissem e, me surpreendi, quando senti o toque dos dedos cadavéricos e frígidos das trevas. Eu senti um prazer mórbido ao toque gelado sobre minha pele.
Hoje eu anseio pelo toque da escuridão, anseio pela névoa macabra para que me envolva e faça exalar o cheiro pútrido de sangue podre. Ah! o cheiro penetrante e adocicado de morte. Minh'alma clama em desespero por sofrimento e meus tímpanos vibram de prazer ao ouvir o silêncio se maculado por gritos de puro terror.
Me perco em êxtase quando tocado pelo frio mortificante que atravessa minha carne e abraça meus ossos. E esse frio me toma com violência e violenta meu espírito obsceno.
Que a Lua sangre! E que corvos agourentos espalhem a enfermidade da mente! E que tudo desabe às ruínas até que não reste uma só mente sã na face desta terra maldita.

domingo, 21 de abril de 2013

Só



Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alterava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.